O Enigma da "Morte"
Com mãos sempre manchadas de tinta arcana, vivendo em um mundo regido por dados, deuses caprichosos e masmorras antigas. Seu poder vinha do silêncio dos túmulos, das vozes que ecoavam após o último suspiro. Um necromante, mas não cruel. Via a morte como uma etapa, não como um fim. Para ele, os mortos eram memória.Seu bem mais precioso era o grimório, encadernado em couro escuro, escrito em línguas que até mesmo os dragões evitavam pronunciar. O livro não era apenas um manual de feitiços, era um receptáculo. Ali estavam fragmentos de sua alma, selos de proteção e rituais que apenas ele compreendia por completo. O grimório respondia à sua presença como um coração responde ao corpo.Foi por isso que alguém o quis roubar.Na noite mais fria ja vista, um ritual raro era preparado: um feitiço de ancoragem espiritual, capaz de permitir que um necromante caminhasse temporariamente entre o mundo dos vivos e o véu da morte sem perder a si mesmo. Ele sabia que era perigoso.Enquanto traçava os círculos no chão de pedra e ditava as palavras antigas, mãos invisíveis sabotavam runas, trocavam símbolos, corrompiam linhas. Alguém tentava roubar o grimório, forçar o livro a se desligar do dono durante o ritual.O grimório reagiu primeiro. Incapaz de ser separado de seu dono, ele começou a se desfazer. Páginas viraram cinzas, runas se despedaçaram em luz negra, e o vínculo entre livro e alma entrou em colapso. A energia liberada foi brutal. O necromante morreu ali mesmo.Sua alma, estilhaçada e ainda presa aos restos do ritual, foi arrastada para um limbo entre a vida e a morte. Ele não pertencia mais a nenhum dos dois lados. Não tinha corpo para morrer, nem descanso para existir.Quando despertou novamente, estava ajoelhado sobre o próprio círculo de invocação destruído. Ele era um fantasma.Usando o conhecimento que restou, gravado em sua própria essência, ele forjou um símbolo de proteção espiritual. O formato antigo que estava marcado na capa de seu grimório, um caixão, criado para ancorar uma alma errante. Com isso, conseguiu algo raro: uma forma tangível, ainda que instável.Ao olhar para si mesmo, envolto em energia necromântica, com olhos que brilhavam como velas em um velório, ele soube que havia ficado para trás.O nome morreu com o corpo.Não era mais apenas um estudioso da morte. Ele era a prova viva, ou não-viva, de que a fronteira entre os mundos podia ser quebrada. Um necromante fantasma, fantasma necromante, condenado a vagar no limbo, mas poderoso demais para ser esquecido.